O Prêmio

FOTOS William Pereira

Concedida a cada dia 5 de agosto sob os auspícios do Icesp e patrocínio do Grupo Folha, a premiação anual visa estimular a pesquisa científica na esfera da prevenção e do combate ao câncer.

Os vencedores são apontados por uma Comissão composta de representantes do próprio Icesp, da Faculdade de Medicina da USP, do Hospital das Clínicas da FMUSP, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), da Academia Nacional de Medicina, da Academia Brasileira de Ciências, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Fundação Oncocentro de São Paulo (Fosp) e da “Folha de S. Paulo”.

Às categorias “Personalidade de Destaque” e “Pesquisa”, acrescentou-se em 2013 uma terceira, sob o título “Inovação Tecnológica”.

O Patrono: Octavio Frias de Oliveira
“Onde há vontade, há um caminho”

Texto de Maria Cristina Frias
Talvez como resultado de uma vida cheia de adversidades, mas também de superações, esse provérbio inglês estava entre os preferidos de meu pai, Octavio Frias de Oliveira (1912-2007).
Dinâmico e pragmático, foi um empreendedor que se distinguiu pela participação no desenvolvimento de São Paulo no século 20. Nascido em uma família de posses que empobrecera, meu pai decidiu aos 15 anos deixar o Colégio São Luiz, em São Paulo, para arrumar um emprego. Só parou de trabalhar ao cair de cama, pouco antes de morrer, aos 94 anos.
“Nada resiste ao trabalho”, gostava de dizer quando queria encorajar alguém diante de um desafio. Fez da sua vida a confirmação dessa frase.
Gago na infância cheia de obstáculos tornou-se um grande vendedor, sobretudo de ideias. Tinha uma admirável capacidade de convencimento, sem faltar com a verdade. Os filhos nunca o viram mentir, mesmo quando seria mais fácil apresentar uma versão rósea dos fatos. Depois tomar parte nas trincheiras da Revolução Constitucionalista de 1932, teve uma rápida ascensão na Secretaria da Fazenda do Estado.
Foi um pioneiro no lançamento de projetos de habitação acessível, que ajudaram a mudar a paisagem urbanística da cidade. Convidou Oscar Niemeyer, entre outros grandes arquitetos de meados do século, para criar obras como o Edifício Copan. Os primeiros prédios na cidade dotados de quitinetes e playgrounds foram iniciativa sua.
Teve um papel relevante na modernização do sistema bancário e na formação do mercado de capitais nos anos 50. Outra inovação foi o estabelecimento da primeira estação rodoviária de São Paulo, em parceria com Carlos Caldeira Filho.
Em 1962, os dois empresários compraram a “Folha de S.Paulo”, que se tornaria o maior jornal brasileiro e núcleo de um grupo que abrange o UOL, os jornais “Agora” e “Valor Econômico” (com a Globo), além do Datafolha, da Editora Publifolha, do Transfolha (empresa de transportes) e da Gráfica Plural. Nos anos 60, Frias presidiu também a então TV Excelsior e a Fundação Cásper Líbero. Dedicou-se ainda por décadas à atividade agropecuária. Na Folha, incentivou um jornalismo independente e pluralista que contribuiu para a redemocratização do país nas décadas de 1970 e 1980 e para a fiscalização do poder desde então.
Curioso como um grande repórter – que, de fato, foi em diversos episódios – ouvia com atenção os interlocutores, dos quais conseguia extrair, mesmo dos menos estimulantes, histórias interessantes. Sua disposição acolhedora e bem-humorada despertava imediata simpatia. A habilidade para lidar com as pessoas era uma qualidade que ele parecia exercitar diariamente. “Não deixe de fazer um elogio sincero”, sugeria.
Era de uma simplicidade espartana. Não tinha vaidades, nem prazer em consumir. O dinheiro, para ele, deveria ser um instrumento social para gerar empregos e desenvolvimento.
Detestava ostentação – inclusive a das próprias virtudes – e desperdício. Muito antes da onda ambientalista, não deixava de pegar um clipe caído ao chão e era de voltar ao quarto do hotel apenas para apagar a luz que um filho tivesse deixado acesa. Evitava admoestações; educava pelo exemplo.
Não se sentia à vontade com homenagens por não se considerar merecedor delas e teria dispensado esta que lhe faço agora. Não cultivava ódios — “não passe recibo [de uma ofensa]”, sugeria. Dedicava-se antes a compreender uma atitude impensada ou maldosa. Sua inclinação era para a conciliação.
Além do empobrecimento da família, sofreu pesadas perdas na vida: a da mãe, quando tinha apenas sete anos, a do pai, ainda jovem, e a da primeira mulher e do irmão em um acidente de carro. Em razão, talvez, de penosas experiências, não era de rememorar o passado ou de sonhar com o futuro. Vivia o momento e valorizava com animação o que houvesse de bom. Aprendeu a reagir da mesma forma ao triunfo e ao desastre, como diz Kipling nos versos que ele gostava de citar.
Sua inteligência extraordinária e sua energia quase inesgotável cativavam a ponto de ainda serem lembradas por quem o conheceu. A segunda união, com Dagmar de Arruda Camargo, deu-lhe os quatro filhos. Nosso pai era afetuoso, tolerante e encorajador.
“Não tinha preconceito, nem culpa, nem mágoa. Era companheiro para qualquer aventura, um entusiasta dos sonhos dos outros. Formou tarde esta que seria a sua família definitiva, razão pela qual tinha urgência em ensinar e compartilhar. No entanto, teve tempo para amar sua família sem pressa e como poucos amaram; foi também amado por ela até o último instante de uma vida luminosa e – até onde isso é possível – feliz”, como escreveu meu irmão Otavio, em ensaio no livro “Seleção Natural”.
No saguão do Icesp, o ditado inglês, inscrito na base de seu busto, exprime a forma positiva e tenaz com que encarava a vida, quem sabe a inspirar pacientes, médicos, enfermeiros, pesquisadores e funcionários na perseverança diante de dificuldades.

CHICAGO, EUA, 1969: Octavio Frias de Oliveira, publisher do jornal Folha de S.Paulo, diante de maquete das máquinas rotativas Goss. (Foto: Folhapress) ***NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DA DIREÇÃO***
***(Foto utilizada para divulgação editorial da biografia de Octavio Frias de Oliveira, do autor: Engel Paschoal) ***
(para a conclusão de que a foto foi feita em 1969, em Chicago, há as seguintes publicações:
– FSP-09-10-1969: pág.3: Sr. Frias regressa de longa viagem por EUA e Europa, quando esteve nas instalações da Goss.
– FSP-05-08-1970, pág. 1: embarque, nos EUA, das rotativas para o Brasil.
– FSP-25-10-1970, pág. 52: esta foto é publicada com a informação de que foi feita em Chicago

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